Introdução
Vivemos sob o peso de uma era saturada de ruído visual, onde a relevância eclesiástica é frequentemente medida pelo brilho das telas e pelo engajamento digital. No labirinto das estratégias de marketing e dos megaeventos, a igreja contemporânea enfrenta uma crise de identidade sem precedentes. Muitos se perdem na busca por uma "igreja relevante" que, embora lotada, carece de substância. O verdadeiro compromisso cristão, no entanto, não é forjado na conveniência, mas na fidelidade que desafia as circunstâncias — o que costumo chamar de teste dos "dois Fs": a disposição de buscar a Deus mesmo em uma quarta-feira de "frio e feriado".
Revisitar o segundo capítulo da carta de Paulo aos Efésios não é um recuo nostálgico, mas uma urgência estratégica. A compreensão profunda desta exegese traz a promessa de uma clareza renovada sobre nossa missão e uma maturidade que nos protege de sermos meros consumidores de entretenimento religioso. Se a Palavra de Deus é o fundamento imutável e se alinhamos nossas ações à "Pedra de Esquina", o resultado é uma igreja que transcende a reunião social para se tornar a morada real do Eterno.
O erro sobre a igreja é o erro sobre a vida
A forma como concebemos a igreja determina a trajetória de nossa caminhada espiritual. Errar na definição do que é ser "igreja" gera um efeito cascata que compromete toda a prática cristã individual. Se o edifício eclesiástico foge de sua missão original, o cristão que nele habita inevitavelmente falhará em sua prática no mundo. Precisamos distinguir o "contar a história" — um mero relato cronológico de eventos passados — do "ser a igreja na história", que implica em exercer uma influência transformadora no tempo presente.
É fundamental compreender que a agenda da igreja não pertence ao pastor. O líder que sucumbe à tentação de ditar prioridades baseadas em seus próprios caprichos ou vaidades não é apenas um guia equivocado; ele é, em termos sistêmicos, um arquiteto do colapso. Quando a estrutura é submetida a uma agenda pessoal em vez dos fundamentos divinos, ela perde o prumo. A igreja não existe para servir aos projetos de homens, mas para cumprir o desígnio dAquele que a estabeleceu.
A pedra da esquina: O prumo que nos alinha
No ápice de sua explicação arquitetônica, Paulo revela em Efésios 2:20 que somos edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas. É crucial notar que a igreja não está firmada na personalidade desses homens, mas na revelação e na doutrina apostólica que eles lançaram a respeito de Cristo. Ele é a referência absoluta.
"A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça do ângulo" (Salmo 118:22). Este conceito, reafirmado em Atos 4:11, aponta para Jesus como a Pedra da Esquina — a pedra angular que os líderes religiosos descartaram, mas que o Pai estabeleceu como o componente técnico e espiritual mais importante da construção.
Na engenharia bíblica, a pedra de esquina é a primeira a ser assentada. Ela define o ângulo de cada parede, o nível de cada piso e a sustentação de todo o edifício. Nada se constrói com segurança fora deste alinhamento. Se uma estrutura cresce desalinhada à Pedra Angular, ela pode até ganhar altura, mas sua queda é apenas uma questão de tempo. Jesus não é um ornamento no topo do edifício; Ele é o prumo que define se o que estamos levantando é uma habitação santa ou uma ruína iminente.
A queda dos muros e a engenharia da paz
O Evangelho é a engenharia divina que derruba muros. O conflito ancestral entre judeus e gentios foi resolvido na cruz, que não apenas perdoa o pecado, mas reconcilia os opostos para criar "um novo homem". Aqui enfrentamos um paradoxo dialético: a igreja não é a ausência de dilemas ou temperamentos difíceis, mas sim o ambiente onde não se alimenta a discórdia. Quem promove a divisão trabalha contra a própria natureza do corpo de Cristo.
Essa transformação de natureza é ilustrada pela rica hinologia doutrinária que, infelizmente, tem sido trocada por mantras emocionais modernos e canções centradas no "eu" ou em "vulcões de sentimentos". Os antigos cânticos lembravam que éramos como um "jambuzeiro brabo" — uma árvore silvestre, amarga e sem valor — que, por um milagre de enxertia divina, foi transformado em oliveira. Onde o mundo ergue cercas de ódio, a igreja, ajustada pela cruz, manifesta a paz que excede o entendimento.
O crescimento não é um evento, é um ajuste
Ao contrário das estratégias de crescimento acelerado baseadas em métricas de marketing, o crescimento bíblico é orgânico e decorrente do ajuste. O apóstolo afirma que "todo o edifício bem ajustado cresce" (Efésios 2:21). O crescimento real não exige o uso de força, engano ou inovações performáticas; ele exige fidelidade à base. Quando focamos na saúde do alinhamento, o Senhor se encarrega da expansão.
Uma igreja saudável, que prioriza o ajuste espiritual sobre a aparência externa, torna-se organicamente:
- Casa de oração: Onde a prioridade é a comunicação com o Sagrado.
- Casa de pão: Onde há sustento real para a alma faminta.
- Casa de comunhão: Onde o ajuste entre as "pedras vivas" gera unidade.
- Casa de edificação: Onde o ensino da sã doutrina constrói o caráter cristão.
- Casa de consolação: Onde o Espírito traz alento através da Palavra, e não de promessas vazias.
A arquitetura da morada de Deus
A visão final de Paulo em Efésios é de uma grandiosidade espiritual profunda: a igreja cresce para ser um "templo santo" e "morada de Deus no Espírito". Isso estabelece uma dinâmica de mútua habitação: nós habitamos Nele e Ele habita em nós. Deus não habita em estruturas que apenas ostentam o rótulo de "igreja", mas em comunidades onde o centro é a Pedra Angular e o fundamento é a doutrina bíblica.
O compromisso com essa missão original gera uma igreja que o Senhor reconhece como boa e fiel. Não somos chamados para sermos "relevantes" segundo o padrão do mundo, mas para sermos santos segundo o padrão do Arquiteto.
Ao final desta jornada, deixo uma provocação necessária: Quando o Arquiteto-Chefe inspeciona o canteiro de obras de nossas vidas e comunidades, Ele reconhece Suas próprias plantas e o prumo de Seu Filho, ou encontra apenas um projeto de vaidade construído com o feno da conveniência moderna e sem qualquer alinhamento com a Pedra Angular?
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