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A Verdadeira Páscoa: Do Egito ao Calvário, o Sangue Libertador


…Esta é a páscoa do Senhor (Êxodo 12.11c)

Sempre que ouvimos a palavra “Páscoa”, seja no contexto cristão ou judaico, ela inevitavelmente nos remete a um dos momentos mais marcantes da história bíblica: o Êxodo. Um divisor de águas entre a escravidão e a liberdade.

A Páscoa original refere-se ao momento em que Deus interveio sobrenaturalmente para libertar seu povo da opressão egípcia. Foi o Senhor quem, após inúmeras tentativas de convencer Faraó a libertar os israelitas, decidiu aplicar sua última e mais severa sentença: a morte de todos os primogênitos no Egito.

Israel já carregava o peso de 400 anos de escravidão. Era a hora de romper as correntes. Deus chama Moisés e revela um plano específico: naquela noite, o Anjo da Morte passaria pela terra, e todo primogênito — humano ou animal — morreria. Seria uma noite de luto nacional, marcada pelo pranto e pelo medo. Porém, Deus também preparou um sinal de proteção. Para os hebreus, haveria uma forma de escapar da tragédia: a distinção seria feita pelo sangue.

Cada família hebreia deveria separar um cordeiro de um ano, perfeito, sem defeito algum. Durante quatro dias, o animal seria cuidadosamente examinado. No quarto dia, ele deveria ser sacrificado, assado (não cozido) e seu sangue recolhido. Com um ramo de hissopo, o sangue deveria ser aplicado nos umbrais das portas. Quando o Anjo da Morte visse essa marca, “passaria por cima” da casa. Daí vem o nome “Páscoa” — do hebraico Pesach, que significa “passar por cima” (Êx 12.13).

Esse evento mudaria a identidade do povo para sempre. Tornou-se um memorial sagrado, celebrado anualmente, com trajes de viagem, cajado na mão e espírito de prontidão. Era mais do que uma tradição — era um recomeço, uma lembrança viva de que Deus os viu, ouviu e libertou.

O calendário judaico se divide em dois: o civil (começa em Tisri, nosso outubro) e o religioso (começa em Abibe, nosso março-abril). A festa da Páscoa marca o início do calendário religioso, onde o centro de toda atenção era o cordeiro.

A ceia pascal era mais do que obediência — era memória coletiva. Um grito histórico de liberdade. A primeira menção à “congregação de Israel” (Êx 12.3) surge justamente nesse contexto, mostrando que Deus via seu povo não mais como tribos dispersas, mas como uma nação unificada.

A Páscoa uniu o povo ao redor da morte de um cordeiro (Êx 12.6), da separação do fermento (Êx 12.19), e da comunhão em torno da mesa (Êx 12.47). Não foi a vida do cordeiro que salvou — foi sua morte. Mas a morte só teve efeito quando o sangue foi aplicado.

Uma pergunta ecoava desde Gênesis 22.7: “Onde está o cordeiro?” Essa interrogação se tornaria o centro da esperança de Israel. O cordeiro da Páscoa era uma sombra profética, apontando para Jesus (1Co 5.7).

Durante séculos, o povo aguardava a resposta. E ela veio quando João Batista rompe o silêncio e declara: “Eis o Cordeiro de Deus…” (Jo 1.29). A espera terminou. O Messias chegou.

Todos pecaram e estavam distantes da glória de Deus (Rm 3.23). A prisão agora não era o Egito, mas o pecado. E como ensina Hebreus 9.22 e Levítico 17.11, não há perdão sem derramamento de sangue. Jesus, ao celebrar sua última Páscoa com os discípulos, se apresenta como o Cordeiro que libertaria o povo — desta vez, da escravidão espiritual.

Em Marcos 14, Jesus pede que dois discípulos preparem o local da última ceia. Seria uma noite intensa: traição, prisão e dispersão. A ceia se tornaria o marco da Nova Aliança, onde o pão representa seu corpo moído, e o vinho, seu sangue derramado.

As festas judaicas eram sombras (Cl 2.16-17; Hb 10.1). Jesus é o cumprimento. Ele foi examinado, testado, interrogado… e aprovado. Como o cordeiro do Êxodo, Ele era sem mácula. Não conheceu pecado (2Co 5.21), não cometeu pecado (1Pe 2.22) e nele não havia pecado (1Jo 3.5).

Assim como o cordeiro da Páscoa não podia ser cozido (para que seus ossos não fossem quebrados), Jesus morreu na cruz sem ter um osso sequer quebrado — algo incomum para crucificados.

Na última ceia, Jesus institui uma nova aliança (Jr 31.31-33). O símbolo agora é Ele mesmo. O sacrifício agora é eterno.

A igreja primitiva discutiu sobre o momento exato de celebrar a Páscoa: dia 14 de Nisã ou no domingo da ressurreição? Roma prevaleceu com a tradição da Sexta-feira Santa e do Domingo de Páscoa. Mas o essencial permanece: celebramos o sangue que purifica de todo o pecado (1Jo 1.7).

Alguns apontam diferenças entre os relatos sinóticos e o evangelho de João quanto à cronologia da ceia. No entanto, todos concordam num ponto central: Jesus celebrou a ceia com seus discípulos e, depois disso, foi crucificado. O Cordeiro foi imolado. A redenção foi consumada.

Hoje, não celebramos um simples ritual, mas uma realidade eterna. A verdadeira Páscoa chegou. E não fomos libertos do Egito físico, mas daquele que escraviza o próprio Egito: o pecado.

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. (João 1.29)

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