A inversão é esta: em vez das Escrituras moldarem o pensamento teológico, a filosofia grega passou a moldar a interpretação das Escrituras. O alicerce mudou de lugar. E poucos perceberam.
A bagagem filosófica que veio junto
Quando gregos se converteram ao cristianismo primitivo, eles não chegaram de mãos vazias. Trouxeram Platão, Aristóteles, todo um sistema de categorias filosóficas já estabelecido. E aqui começou o problema: em vez de permitir que a revelação do evangelho reformasse completamente o modo como pensavam, tentaram encaixar a revelação dentro das categorias que já conheciam.
Isso não aconteceu de má fé. Pelo contrário - aconteceu porque eles queriam defender a fé, torná-la compreensível, dar-lhe respeitabilidade intelectual no mundo greco-romano. Mas no processo, algo se perdeu. A filosofia deixou de ser ferramenta e virou fundamento.
César Moisés Carvalho, no livro Teologia Sistemático-Carismática, identifica essa questão como central: surgiu a concepção de uma "razão omniabrangente", uma razão que se considera todo-poderosa, sem consciência dos próprios limites. Uma razão que não reconhece ter sido afetada pela Queda. Isso não é pensamento bíblico - é pensamento grego. Mas virou base da teologia escolástica, tanto católica quanto protestante.[1]
O problema chegou até os reformados
Você poderia pensar: "Mas isso é problema da Idade Média. A Reforma resolveu isso, não?" Não exatamente. A questão é mais complexa - e mais incômoda.
João Calvino, um dos maiores teólogos da Reforma, olhava para o aristotelismo com reserva. Havia algo ali que não batia direito com sua leitura das Escrituras. Mas os escritores calvinistas que vieram depois dele tomaram outro caminho. Abraçaram Aristóteles de braços abertos.[2]
Por quê? Porque precisavam de consistência. Porque a demonstração de coerência interna do calvinismo havia se tornado cada vez mais importante. Porque queriam que a teologia reformada fosse reconhecida como um sistema sólido, racionalmente defensável. E Aristóteles oferecia exatamente isso: método, lógica aristotélica, ferramentas de argumentação testadas e aprovadas por séculos.[3]
O problema é que, ao buscarem esse "alicerce racional mais sólido" em Aristóteles, repetiram a inversão medieval. A razão natural ganhou autonomia em relação à fé e à revelação divina. E isso - precisa ficar claro - expressa uma visão grega falsa da razão como centro da natureza humana, não uma visão bíblica.[4]
A questão da autoridade
Aqui está o cerne da questão: quando você constrói sua teologia sobre premissas filosóficas, você inevitavelmente acaba moldando as Escrituras de acordo com essas premissas. A inversão acontece de forma tão sutil que você nem percebe. Você acha que está fazendo exegese, mas na verdade está fazendo eisegese - colocando na Bíblia o que sua filosofia já te ensinou a procurar.
E isso não é irrelevante. Não é discussão de torre de marfim. Isso afeta profundamente como você lê a Bíblia, como entende Deus, como vive a fé. Se sua estrutura teológica tem mais de Aristóteles do que de Paulo, você vai ter problemas. Porque Aristóteles nunca conheceu o Espírito Santo. Aristóteles nunca viu Pentecostes. Aristóteles trabalhou com categorias de um mundo sem revelação divina.
O desafio para hoje
Essa história não é só passado. É brutalmente presente. Especialmente para quem está no movimento pentecostal-carismático. Porque há uma tendência - compreensível, mas perigosa - de buscar respeitabilidade acadêmica adotando sistemas teológicos prontos, formatados, com toda a solidez racional que a academia exige.
E no processo, podemos estar trocando a riqueza da experiência no Espírito por uma teologia que, no fundo, tem mais de Aristóteles do que de Atos dos Apóstolos. Podemos estar silenciando a experiência carismática em nome de uma coerência sistemática que, na verdade, é filosófica, não bíblica.
Não se trata de desprezar a razão. Absolutamente não. Se trata de colocar a razão no seu devido lugar: como ferramenta submissa à revelação, não como fonte autônoma de conhecimento teológico. A razão é dom de Deus - mas uma razão caída, que precisa ser constantemente corrigida e redirecionada pela Palavra.
Examine seus fundamentos
A pergunta final é esta: de onde vêm suas categorias teológicas? Quando você pensa sobre Deus, sobre salvação, sobre Igreja, sobre o Espírito Santo - suas categorias vêm das Escrituras ou de tradições filosóficas que você herdou sem questionar?
Porque fazer teologia genuinamente bíblica é mergulhar nas Escrituras e deixar que elas desmanchem nossos sistemas, não encaixar as Escrituras nos sistemas que já temos. É permitir que a revelação nos surpreenda, mesmo quando isso significa abandonar estruturas que pareciam sólidas.
E se descobrirmos que estamos lendo a Bíblia com óculos gregos? Então está na hora de tirar os óculos.
REFERÊNCIAS
[1] CARVALHO, César Moisés; CARVALHO, Céfora. Box Teologia Sistemático-Carismática. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2023.
[2] Para discussão sobre a relação de Calvino com o aristotelismo, ver análise sobre a escolástica protestante em: CPAJ. "Calvino e os Calvinistas da Pós-Reforma". Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Disponível em: https://cpaj.mackenzie.br/recursos/blog-andrew-jumper/
[3] A discussão sobre como escritores calvinistas posteriores recorreram a Aristóteles para dar maior coerência ao sistema reformado é documentada em estudos sobre escolasticismo protestante. Ver CARVALHO, César Moisés, op. cit.
[4] A crítica à autonomia da razão natural em contrapartida à fé e revelação divina, como expressão de uma visão grega falsa, é desenvolvida por CARVALHO, César Moisés, op. cit.
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