Contudo, essa narrativa, embora sedutora, colide frontalmente com a diagnose bíblica da condição humana. A teologia cristã argumenta que o caráter não é um produto de fabricação própria, mas um fruto de cultivo divino. Tentar construir virtude por esforço próprio é como esperar que um jardim floresça sem a intervenção de um jardineiro.
A falácia do poder inerente de autoaprimoramento foi ilustrada de forma brilhante por um cientista evangélico, conforme relatado por Antonio Gilberto em sua obra "Fruto do Espírito".
Um famoso cientista britânico, que era evangélico, tinha amigo íntimo que possuía dúvidas sobre o cristianismo, opinando costumeiramente sobre a natureza humana. Ele acredita que todos os homens têm, em si mesmos, o poder do auto-aprimoramento, a ponto de, eventualmente, atingirem a perfeição. Mas aquele cientista discordou com energia, afirmando que um número incontável de homens, através dos séculos, tem procurado melhorar a si mesmos, mas tem fracassado.
Para demonstrar sua tese, o cientista simplesmente deixou uma parte de seu belo jardim sem cuidado algum, aplicando o "princípio de auto-aprimoramento" de seu amigo. O resultado foi previsível: o canteiro foi dominado por ervas daninhas e as flores secaram. Esta lição objetiva é a pedra fundamental para entendermos a produção do caráter cristão: ele não ocorre por acidente nem por esforço autônomo.
A Escritura descreve essa realidade como um conflito inerente e perpétuo dentro do ser humano: a luta entre a "carne" e o "Espírito".
Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. (Fonte: Gálatas 5.17, citado em "Fruto do Espírito", p. 17)
A "carne" aqui não se refere ao corpo físico, mas à nossa natureza pecaminosa, a tendência inata à desordem, ao egoísmo e à rebelião — as "ervas daninhas" do jardim. Quando um indivíduo opera a partir dessa natureza, ele produz as "obras da carne": inimizades, ciúmes, iras, discórdias. Tentar suprimir essas obras com mera força de vontade é um exercício de futilidade.
A solução bíblica não é tentar mais, mas render-se a um novo princípio de vida. A vitória sobre a carne e o cultivo de um caráter virtuoso — o "fruto do Espírito" — só é possível quando o Espírito Santo assume o controle da vida do crente.
É uma mudança de governo.
É crucial notar que a Bíblia se refere a "fruto" no singular, não "frutos". Isso "sugere a unidade e a harmonia do caráter do Senhor Jesus Cristo", uma totalidade integrada que não pode ser alcançada por um autoaprimoramento fragmentado que busca melhorar uma virtude de cada vez.
Quando o Espírito Santo controla o crente, este se torna como um solo fértil, onde o Espírito pode produzir o Seu fruto. Mediante o poder do Espírito, o crente torna-se capaz de dominar os seus desejos da carne, vivendo de modo a ter uma vida frutífera, de abundância espiritual.
Portanto, o desenvolvimento de amor, alegria, paz, paciência e das outras virtudes não é um programa de melhoria pessoal. É a consequência natural da vida de Cristo sendo formada em nós pelo Espírito Santo. O foco muda do "fazer" para o "ser"; da autoconfiança para a dependência; do autoaperfeiçoamento para a santificação. A pergunta crucial deixa de ser "O que eu preciso fazer para ser melhor?" e torna-se "A quem estou permitindo que me governe?". A resposta a essa pergunta determinará o que sua vida irá, inevitavelmente, produzir.
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